À paulista, marroquino, tailandês, ele está por toda parte, mas, igual ao da minha avó, procura-se
Por Adriana Veronez
O Especial Semana da Gastronomia rendeu bons textos, receitas deliciosas e muitas dicas de expert em gastronomia, Bia Amorim. Encantada com o clima “água na boca”, nossa leitora e amiga, Adriana Veronez, excelente jornalista, afiou as canetas e resolveu nos presentear com a receita mais que especial do Cuscuz de sua avó. Uma deliciosa lembrança de Natal que ela divide conosco.
Quando criança, lá pelos seis e sete anos, cruzava os dedos para que chegasse rapidinho o domingo. Não porque ia descansar ou brincar e, sim, porque era dia de comer o apetitoso cuscuz da vovó. E que cuscuz! Além do abraço caloroso e do sorriso faceiro, minha vó tinha a habilidade incontestável de nos alegrar o estômago. Olhava fixamente aquele “bolo” amarelado, redondamente perfeito, sobreposto num refratário de inox, envolto numa toalha estampada laranja e marrom, e perguntava-me como alguém podia fazer algo tão divinamente saboroso!
Minha vó, mesmo sendo carioca da ‘gema’, sabia como ninguém preparar esse prato tipicamente nordestino, feito à base de farinha de milho. Ela era craque nisso e ponto final, assim como nas orações matutinas. Acordava cedo, lá pelas sete horas, dizia oi para os periquitos, samambaias e colibri, tomava seu café com leite, acompanhado sempre de um versículo da bíblia. Assim, começava o dia…
…mas, durante a semana não tinha cuscuz. A festa maior era mesmo no Natal. Quando via as casas enfeitadas, as janelas ornamentadas, árvore decorada, era sinal de que, muito em breve, o veria novamente, e melhor, à moda leopoldinense. O tempero era ainda mais tentador. O gosto acentuado da sardinha era um prenuncio amigo, e a disputa já não era pelo pedaço de rabanada, e sim…. pelas migalhas perdidas no balcão.
Leopoldina ou vó “Pudina”, como a chamávamos, era caprichosa e prendada, principalmente no manuseio dos alimentos. Sistematicamente, cortava as rodelas de cebola, o palmito e ovos cozidos e, com muita sutileza, acrescentava os demais ingredientes. Esse ritual, não raro, chamava minha atenção, tanto que, em muitos momentos, eu conseguia associar essa cena a alguém que estivesse preparando a banheira (com sais) para o banho, de tanta perfeição que cabia nesta cerimônia gastronômica.
Antes das refeições, o ato singelo de agradecer a Deus, por meio da oração. Como pode ver, minha velha avó me ensinou muitas coisas, e uma delas que jamais esqueço é comer, comer e comer. Se quiseres seguir o mesmo conselho, mãos à obra e se delicie com a receita a seguir.
Aproveite o Natal que está chegando.
Bom Apetite!
Cuscuz à moda leopoldinense
Ingredientes:
1 xícara de óleo
1 lata de ervilha
1 vidro de palmito
½ lata de azeitonas
1 lata de sardinha, atum ou camarão, conforme gosto
2 xícaras de farinha de milho
1 litro de água
Salsinha, cebolinha e pimentão, à vontade
Ovos para decorar
Modo de Preparo:
Refogue no óleo a cebolinha, o pimentão e os demais ingredientes, até ficarem dourados. Em seguida, acrescente a sardinha ou os camarões, as azeitonas, palmito, ervilha, a água e, por último, a farinha de milho. Deixe cozinhar, até desgrudar da panela. Feito isso, deposite em um refratário e espere esfriar. Rende, em média, 12 fatias.
O início …
Você sabia que o kuz-kuz ou alcuzcuz surgiu na África, feito pelos mouros com arroz ou sorgo (farinha de milho) e fez tanto sucesso que o alimento se espalhou pelo mundo no século XVI. No Brasil, a iguaria ficou conhecida depois que foi trazida pelos portugueses e acabou se popularizando durante a época colonial. Preparado pelos escravos, o cuscuz era vendido em tabuleiros pelos mestiços, filhos e netos.



2 Comentários
Novembro 11, 2008 às 1:36 am
Adriana, que delícia de cuzcuz e de avó!!!!Assim que possível vou fazer, até por que já estou a muito tempo com vontade de comer um desses. Uma coisa que me deixou curiosa foi a observação de onde vem o nome e se teria algo relacionado a KKK (nao sei como se escreve, tvlz Kuz Kuz Klan???)rs!!!ótimo texto!!!beijo
Setembro 24, 2009 às 12:17 pm
Fiquei super contente de encontrar esta receita simples e saborosa, sendo de uma senhora que agradou muitos paladares. Com certeza irei fazer em casa para minha esposa e filhos urgente. Pois
estavamos falando sobre cafe da manha nordestino e meu amigo no trab falou do cuscuz, sair a procurar na web e encontrei esta receita. obrigado parabens!!!