Foi assim que a jornalista e pesquisadora Monica Martinez se manifestou na plateia, depois de assistir a palestra-entrevista de Gay Talese, no MASP, em São Paulo, na noite de terça-feira, 7/7. Aliás, não só ela, como uma plateia de mais de 300 pessoas, entre jovens jornalistas, estudantes e figurões da imprensa brasileira – como Matinas Suzuki, ex Folha, TV Cultura, Abril e IG – saíram do anfiteatro lotado.
Era de se esperar, já que seria a última entrevista de Talese no Brasil, que veio para cumprir uma agenda bem lotada, que incluíram – entre outros compromissos – presença na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), que aliás, ele teceu elogios únicos. “Fiquei impressionado com a FLIP. Eu nunca vi nada parecido. Pelo menos em New York e Washington não existe nada parecido. É uma reunião incrível de tantos apaixonados pela literatura“, disse.
Com seu terno impecável, sapato bicolor, postura ereta, com as pernas sempre cruzadas, apoiadas em um corpo esguio de 77 anos, o jornalista, referência mundial quando se pensa nos conceitos do New Journalism – título que ele não reconhece como seu – Talese transformou a entrevista de Ilan Kow, editor-executivo do jornal O Estado de S. Paulo, em uma narrativa deliciosa de suas próprias histórias.
E de histórias ele entende! Gay Talese começou sua carreira como o que ele mesmo intitulou de Copy Boy, do The New York Times, em 1953. Não fazia nada, além de servir café para os editores e fazer serviços rápidos. Até que se encantou com o homem que projetava as manchetes do jornal no luminoso em frente ao prédio da empresa. Entrevistou o sujeito, escreveu um texto e a partir de então o mundo ganhou um dos maiores nomes da redação, quem, anos mais tarde, junto com Tom Wolfe, Jimmy Breslin, Truman Capote e Norman Mailer, mostraria ao mundo um novo jeito de fazer jornalismo.
Modesto, Talese recusa o título de “pai” do Novo Jornalismo, mas o mundo o reconhece como tal. Marcelo Bulhões, professor doutor em Literarura Brasileira pela USP, diz em seu livro Jornalismo e Literatura em Convergência:
“O New Journalism não foi exatamente um movimento, pois não despontou com um delineamento de ideias estabelecidas por um grupo coeso de representantes, tampouco elaborou um p
rograma ou um manifesto declaratório de princípios. Foi mais uma atitude que se processou na fluência de uma prática textual desenvolvida em alguns jornais e revistas americanas, inicialmente com os textos das chamadas reportagens especiais publicadas na Esquire e no Herald Tribune, por gente como Jimmy Breslin e Gay Talese, até atingir a configuração de grandes narrativas com feição de romance, nas obras de Truman Capote e Norman Mailer”. (2007. p. 145)
E Talese continua fazendo história, já que neste momento escreve um livro sobre o casamento, contando os fatos reais de sua união de mais de 50 anos. E é isso o que ele mais defende: a verdade. “O bom jornalismo é feito da verdade tanto quanto se pode chegar perto dela“, afirmou.
A vida que ninguém vê
Parafraseando Eliane Brum, provavelmente sem saber, Talese confessou que ele sempre “enxergou a vida que ninguém vê“. Desde jovem sempre se interessou pela vida das pessoas comuns e não das celebridades, apesar de também ter escrito sobre personalidades. Por conta do que considera uma das suas maiores qualidades – a curiosidade – ele conseguiu adentrar a vida privada de pessoas comuns e contar histórias reais que, cada vez mais, todo mundo tem vontade de ler.
Como quando foi escalado pelo The New York Times para cobrir um jogo de beisebol, pelo caderno de Esportes, e se encantou mais com o cortador de grama do estádio do que com as estrelas do time. “Eu sou uma pessoa que gosta de pessoas. Tenho disposição para gastar tempo com as pessoas. Eu dou atenção à elas, me importo em transformar em quadros as palavras dessa gente“, disse, com sua fala mansa e pausada.
Deve ser por isso que ele é o precursor desse fazer jornalismo com pitadas literárias. Tanto que seus mais de sete livros, incluindo os sucessos Fama e Anonimato e A Mulher do Próximo, todos editados no Brasil pela Companhia das Letras, são traduzidos para inúmeras línguas no mundo todo.
E ter o privilégio de poder ouvi-lo falar foi realmente fantástico. Uma das boas experiências que poderei contar a meus netos no futuro.


2 Comentários
Julho 8, 2009 às 5:26 pm
Quero notificar aqui a falta de organização dos responsáveis pelo evento. É inacreditável que num evento desse porte, onde se irá ouvir talvez o maior gênio do jornalismo mundial ainda vivo, se subestime a presença massiva de profissionais, estudantes e até mesmo simpatizantes de sua obra. Eles mostraram um total despreparo na realização do evento deixando do lado de fora algumas pessoas que, como eu e meus amigos, chegaram no horário devido para conseguir o ingresso. Houve confusão de informações e falta de organização e nós, mesmo tendo permanecido lá orientados pelos próprios organizadores, não conseguimos assistir a palestra.
Julho 8, 2009 às 7:43 pm
[...] http://desconfiando.wordpress.com/2009/07/08/gay-talese-no-masp/ http://glauciananunes.wordpress.com/2009/07/08/gay-talese-encanta-mais-de-200-pessoas-no-masp/ [...]