Setembro 2, 2009...12:46 pm

Frederico não sabe o que é ser normal, mas carrega consigo uma bonita forma de lucidez

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Por Glauciana Nunes

fred

Nossos caminhos se cruzaram sobre o trilho do trem. Um trilho já abandonado, mantido apenas como história no chão de um dos galpões da Cinemateca Brasileira. Interessante perceber que no meio da multidão trazemos para perto pessoas tão interessantes. Tinha que ser naquele momento, com aquele propósito.

Trocamos duas frases, ainda olhando para o trilho do trem e ele continuou conversando. A pauta daquela noite fria e chuvosa, em 28 de maio de 2009, era o documentário Vigília Insana, de Crícia Giamatei, jornalista formada pela USP.

Ele, Frederico Pereira da Silva, pele branca, 65 quilos, 1,70 metros, 30 anos, olhos muito verdes que olhavam no fundo dos meus pretos. Parece que sentiu tanta confiança em mim, que nem se importava com as pessoas que iam e vinham pelo galpão. E falou-me que estava ali para assistir o documentário, porque procura entender melhor a esquizofrenia, seu problema.

Foi abrindo seu coração e me dizendo coisas que deve ter contado para poucas pessoas: queixou-se da indiferença dos pais com relação a sua doença, mas comemorou o fato de hoje conseguir se controlar.

– “Ouço vozes, muitas vozes, o tempo todo. E às vezes também vejo vultos“– disse ele.

Mas, também se alegrou.

– “Entretanto, hoje em dia eu os ignoro. Deixo que falem o quanto quiserem e faço de conta que não os escuto” – ponderou.

Contou-me das várias crises que já teve, das inúmeras vezes que teve vontade de acabar com a própria vida, da semana que passou internado em um hospital psiquiátrico e do quanto já agrediu física e verbalmente seus pais. Também me disse que suas atividades o ajudam muito a conseguir relacionar-se com as pessoas, porque houve tempos em que não saía do quarto escuro. Hoje, a música, o coral e o artesanato o ajudam a se ocupar e a retomar o convívio social.

Caminhamos até a sala de exibição do média metragem e ele pediu para sentar-se ao meu lado. Conversamos até que as luzes se apagassem e sua última frase foi:

– “Não consigo saber o que é considerado normalidade. Não sei identificar o que é normal“ – disse Frederico.

E assim foram 54 minutos de indigestão e mal estar por não saber o que é essa tal de normalidade. Vigília Insana na tela mostrava o relato de mulheres que se encontram internadas no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico de Franco da Rocha, conhecido como Manicômio Judiciário.

A partir do terceiro relato Frederico, ao meu lado, já estava incomodado: olhava para o lado sem parar, como se alguém o chamasse sempre, mas não havia ninguém a sua esquerda. Sabendo de seu problema, imagino que ele estava tão incomodado quanto eu, que o filme devia mexer com ele, da mesma forma que me deixava nauseante.

Ali, vimos a degradação humana em uma de suas formas mais crueis. Sujeira, insanidade, pobreza, falta de esperança, violência e mulheres que carregam a marca de seus crimes.

A maior parte das internas cometeu assassinato. Mataram pais, mães, irmãos, filhos, companheiros. Muitas se arrependem e não se consideram loucas, já outras dizem que se saírem dali continuarão a matar e concordam que têm algum tipo de distúrbio, muitas classificam como depressão ou perturbação.

– “Eu matei meu pai, minha mãe e meus três irmãos. Só!“– respondeu uma das internadas, quando questionada o porquê de estar ali.

Falam do dia-a-dia, das mazelas, da falta de esperança de um dia sair de lá – algumas se encontram ali há mais de 30 anos. Se queixam do esquecimento por parte da família, que as deixaram completamente, e sentem falta de um amor, de um aquecimento.

O documentário terminou, Frederico me olhava com olhos bem abertos e saímos da sala. Eu não tinha palavras para continuar um diálogo e, pelo jeito, ele também não.  Apertamos as mãos, ele disse que gostou muito de mim, eu dei a recíproca e ele se foi.

Os nossos caminhos se cruzaram mais uma vez

Após aquela despedida fui embora com a triste sensação de que talvez não veria mais Frederico e que aquele encontro tão rápido e, ao mesmo tempo tão profundo, ficaria apenas na galeria das boas memórias dos fatos da minha vida. Afinal, não tínhamos trocado telefone e nem qualquer outra forma de contato.

Entretanto, o destino fez com que nossos caminhos se cruzassem novamente e a tecnologia fizesse com que nos encontrássemos. Frederico jogou meu nome na Internet e me mandou um e-mail.

Ele, que tem esquizofrenia desde a infância, é tão marginalizado socialmente, que sofre o descaso de sua própria família, teve a atitude de acessar a web, jogar meu nome em um buscador, encontrar meu e-mail e me escrever. Até que ponto Frederico não tem raciocínio? Pode ser considerado louco? Incapaz de responder por seus atos?

O que ele me explicou é que hoje seu dia-a-dia é mais controlado, por conta dos remédios prescritos pelo psiquiatra que o trata há mais de sete anos, Dr. Waldemar Pinto. Frederico só teve ajuda médica aos 23 anos, depois de agredir a esposa, a jovem Andreza Batista Conceição, que na época tinha 19 anos e não conseguiu ficar ao lado do marido nas comuns crises que ele tinha.

– “Eu bati nela várias vezes, agredia verbal e moralmente, eu não a culpo por ela não ter ficado comigo. Era muito difícil para ela” – relembra Frederico.

Aliás, a ajuda das pessoas mais próximas, que ele tanto precisava, era a que menos tinha. Passou toda a infância sendo preterido pelos pais por o considerarem doente, fraco da cabeça, com suas próprias palavras. Até hoje sente-se magoado por não ter tido o apoio das pessoas que ele considerava primordiais para a sua melhora. Sua mãe só tomou uma atitude prática quando ele teve a pior crise, que culminou no fim do seu casamento. Naquela ocasião, com Frederico completamente fora de si, ela o levou a um psiquiatra.

Os exames clínicos diagnosticaram o que a mãe tanto temia, a esquizofrenia. No dia seguinte a consulta ao médico, Fred teve um surto enquanto caminhava nas ruas do seu bairro, voltando da padaria. Quando acordou, estava em um hospital psiquiátrico.

– “Foi o pior momento da minha vida, com certeza. Eu saí de casa para comprar pão e quando me dei conta estava amarrado a uma cama, já tinham passado dois dias, eu sem tomar banho, sem comer. Me senti completamente abusado – lembra-se emocionado Frederico.

Foram quatro semanas de internação e os piores dias que Fred já viveu. Ciente de sua doença e ainda sem entendê-la por completo, sentia os reflexos negativos de estar no Hospital Psiquiátrico Pinel, no bairro de Pirituba, Zona Oeste de São Paulo, junto a outras tantas pessoas com distúrbios psicológicos. Ele se lembra que havia internos que estavam ali há muitos anos e que não tinham a menor lucidez e que isso o fazia mal.

O sanatório foi construído na Fazenda Anastácio, no subúrbio de Pirituba, uma região de sítios cercada por uma grande área verde. O Hospital Psiquiátrico Pinel foi pioneiro, no Brasil, na aplicação de eletrochoques. Em 1922, atendia cerca de 120 pacientes mulheres, distribuídas em seis pavilhões, conforme seu estado psíquico – apenas em 1987 o sanatório passou a fazer um atendimento misto.

Quando o governo do Estado de São Paulo comprou o sanatório em 1944, doentes das classes sociais mais carentes também passaram a ser atendidos. Em 1970 a capacidade de atendimento foi ampliada para 322 leitos. A cada ano, a estrutura organizacional do sanatório é atualizada de acordo com os novos programas de saúde. Hoje o trabalho é executado por uma equipe multiprofissional, com programas de atendimento ao público adulto, infantil e de reinserção social.

Apesar da proposta positiva da casa, Frederico não considerou boa sua estada ali, pois o contato com pessoas com problemas mentais de toda a ordem o fazia ficar ainda mais perturbado. Acabou tendo alta, porque os fortes remédios que ingeria o faziam dormir bastante, o que impedia a manifestação das crises. Assim, o médico, ao final da semana, o considerou apto a voltar ao convívio da família.

Entretanto, esse tratamento nunca acabou, apesar de Frederico não simpatizar nem um pouco com psicólogos e psiquiatras, pois – segundo ele – são profissionais que só buscam o dinheiro. Ainda hoje toma os remédios e acredita que graças a eles suas crises diminuíram. Ouve vozes o tempo todo, mas atualmente consegue não entrar em surto.

Recorrendo a qualquer tipo de tratamento, a mãe de Fred, Isolda Graça Pereira, hoje com 70 anos, o levou há alguns anos a um Centro Espírita, da corrente de Allan Kardec. Lá, ele recebeu um tratamento mediúnico, porque a doutrina espírita acredita que a esquizofrenia não é um problema psiquiátrico, mas sim espiritual. Segundo Kardec, as vozes e os vultos que os encarnados escutam e veem são, na realidade, espíritos de pessoas desencarnadas. Na maioria das vezes, espíritos não-evoluídos que querem fazer o mal a esses encarnados.

Frederico, após o tratamento mediúnico, melhorou e se sente melhor. Ele diz que as crises diminuíram sensivelmente, entretanto não acredita que tenha sido por essa razão e sim porque intensificou o uso da medicação e também porque buscou formas de ocupar o seu tempo.

Hoje Fred toca instrumentos e canta. Ensaia três vezes por semana no coral da Igreja Batista da Vila Mariana, o bairro onde mora, frequenta um curso de artesanato às quartas e sextas-feiras e acha que a música e o trabalho manual são os responsáveis por seu controle emocional e por sua vontade de se relacionar novamente com as pessoas, pois sempre foi muito fechado, até pelo medo de o considerarem louco.

Segue sua vida ciente de que tem problemas, que talvez nunca consiga resolvê-los, mas tem força de vontade e crença que pode viver uma vida saudável controlando a esquizofrenia que tem. O seu sonho agora é poder voltar a trabalhar e estar, assim, completamente inserido no mundo “normal” novamente.

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