Sábado assisti, depois de muito tempo [É, a vida de mãe tem dessas. Às vezes passamos meses sem ver os filmes que levaram o último Oscar] o brilhante “Quem quer ser um milionário?“, nome original “Slumdog Millionaire”.
Ele foi filmado em Mumbai, Índia, e é mérito do talento do diretor Danny Boyle, já que foi feito sob econômicos recursos. E, de tão brilhante que é, faturou 8 estatuetas do Oscar 2009, entre eles o principal prêmio da noite, de melhor filme, desbancando super produções holywoodianas.
Mas, eu não vim aqui falar do filme, já que provavelmente todos já o viram e eu não vou chover no molhado. O que eu tenho para dizer é que uma parte bem específica é a melhor de todas, em minha opinião: quando a personagem de Jamal Malik (Dev Patel), ainda criança, está em uma latrina, no meio de um gigante lixão a céu aberto, e chega de helicóptero o maior astro do cinema indiano, Amitabh Bachchan. Para sacaneá-lo, Salim, seu irmão, o prende no banheiro. Ele, sem conseguir sair, se desespera por não poder ver seu ídolo e sua única alternativa é sair por baixo da latrina, pulando no cocô que cai no chão, daqueles que frequentam a privada.
É hilário! Jamal não pensa duas vezes. Pega a foto do ídolo no bolso, olha para ela, respira fundo, se enche de coragem, tampa o nariz, com a outra mão levanta bem alto a fotografia já amassada do ator e pula no buraco. Literalmente cai na merda. Ele mergulha naquela pasta marrom e sai correndo, melado dos pés à cabeça, por entre a multidão. Vai passando um a um, dribla a corrente de seguranças e chega até o seu ídolo, coberto de cocô, fedido e ganha o tão sonhado autógrafo. Feliz, comemora, gritando!
Primeiro, eu ri muito vendo essa cena, depois eu chorei. Discretamente, mas chorei. Depois que aprendi que nenhum choro é de alegria, fiquei refletindo o porquê de me emocionar com aquela cena. E resgatei de meu inconsciente a coragem, o amor e a alegria que existe nas crianças. Será que esses três adjetivos convivem pacíficos com nós, adultos?
As crianças fazem qualquer coisa por seus sonhos, são capazes de encontrar soluções muito fáceis e simples para os desafios intransponíveis do mundo de gente grande. Parece que não têm a cortina da censura, que os faz – sem pestanejar – pular em um buraco cheio de cocô para chegar na frente de seu maior ídolo. A coragem que os impulsiona para a vida é cheia de vigor, é instingante.
Quantos de nós já não pulamos na merda para realizar os nossos sonhos infantis? Aposto que todos nós, um dia, já fizemos isso quando criança. E quantos de nós ousa, hoje, colocar o dedo sequer no cocô para poder alcançar um sonho? Poucos, imagino. Eu, inclusive.
Porque é isso, minha gente, alguns sonhos estão bem ali, atrás da poça de bosta. Basta um simples pulo para que possamos gozar da alegria de alcançar um objetivo, para fazer os olhos brilharem por algo que desejamos muito. Será que temos essa coragem, de pronto, de nos lançar contra as barreiras? Uma pergunta que mexe com nosso brio.
Muitos responderão, melindrados: “É claro que sim!”. Mas, diariamente, vejo amigos e pessoas diversas frustradas, decepcionadas com a vida, questionando seu destino, suas escolhas, talvez porque não tiveram a ousadia de se lançar no mar de merda para conquistarem seus sonhos. Não tiveram a audácia de pular, sem medo, para conquistar aquilo que parecia impossível, mas que estava ali, logo após o obstáculo.
Quero carregar em mim a pureza de Jamal, a ousadia gratuita e imediata de fazer qualquer coisa pelo sonho, porque pelos nossos sonhos qualquer banho de cocô vale a pena. Ah, se vale!



2 Comentários
Setembro 15, 2009 às 9:13 pm
Ora mas é claro que sim. Ao encarar a merda como um obstáculo, acho que todo mundo pula. Ainda não vi o filme, mas em apenas uma cena ele consegue trazer à tona um tema que rende uma bela discussão. Tenho um amigo que diz que é preciso comer merda, referindo-se a situações difíceis em começo de carreira. Enxergar o universo sob a ótica de uma criança, com menos regras e limites é uma maneira interessante de resolver os problemas. E mais interessante ainda é conseguir encontrar soluções dentro de todas as regras do mundo adulto. A vida é um grande jogo com uma realidade muito flexível. “Mais de mil destinos em cada esquina” Qual é o fim? Entre derrotas e vitórias, fica o aprendizado. O importante é participar.
Setembro 16, 2009 às 2:52 pm
Decidir é um verbo que envelhece conosco. Quanto mais velhos ficamos, mais difícil é decidir. Os “ses” ficam criando osbtáculos, poréns. É o que Paulo
Francis chamava de “abantesmas”, que são nossos monstros internos, medos e limitações. Manter o “decidir” sempre jovem e pronto a correr dá trabalho.
Parabéns pelo texto, Glau.