Outubro 21, 2009...5:13 pm

Segredos do mar e da vida

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jangada 4
Seu Vasco, como é chamado pelos colegas o jangadeiro Vasconcelos, não tem o perfil mais comum do homem alagoano: tem os olhos verdes, tal qual aquele mar que ele veleja diariamente há 7 anos, desde que começou a trabalhar com a jangada, os cabelos de um tom castanho claro e a pele avermelhada, devido ao sol diário que seu escritório a ceu aberto lhe propõe.

Com 48 anos e se sentindo “judiado”, em suas próprias palavras, Seu Vasco já fez muita coisa na vida, incluindo os sete filhos de duas esposas diferentes. E, sem esconder a modéstia de bom cabra nordestino, disse sorrindo encabulado, que “ainda poderia fazer mais”, entretanto optou por viver apenas ao lado da terceira mulher, que já tem 44 anos e não consegue mais engravidar.

- “Ter filho é coisa séria. Não dou moleza para os meus meninos, não. Se eles fazem algo que me desagrada, falo uma, falo duas, com energia. Assim, não tem erro” - disse enfático Seu Vasco, enquanto jogava água na vela da jangada. Segundo ele, aquela água é a gasolina da embarcação, já que faz o tecido ficar pesado e não filtra o vento. O que faz, por consequência, que ela deslize mais rapidamente pelas águas mansas da Pajuçara, praia urbana de Maceió.

Homem conhecedor do mar, Seu Vasco desde os 9 anos de idade já desvenda os segredos das marés. A tradição familiar da pesca o fez homem navegador, que respeita os limites do ofício que escolheu.

- “Esses barquinhos aí no meio são para pesca. Passamos 5 noites e 4 dias em alto mar, pescando”, falou todo orgulhoso.

Composto por três pescadores, praticamente não dormem nessas jornadas que fazem a mar aberto. Primeiro pelo espaço reduzido da embarcação, segundo porque devem manter os olhos bem abertos aos perigos que ameaçam a nau, que podem ser desde uma virada da maré até um grande navio vindo em direção ao barco, o que faria todos irem pro fundo.

Aliás, em apenas 20 minutos percorrendo os dois quilômetros que separam as areias da praia de Pajuçara às piscinas naturais próximas da barreira de corais, Seu Vasco nos contou histórias dignas de pescadores experientes.

Lembrou de uma vez que estava no mar, durante essas jornadas pesqueiras, e uma baleia jubarte – que nos meses de verão vem para as águas quentes daquelas bandas para amamentar os filhotes – passou levando a corda que segura a âncora do barco. Uma corda quilométrica sendo arrastada pelo mamífero gigante. A narração de Seu Vasco lhe daria a vaga de roteirista de um filme do Steven Spielberg. Sorte dos turistas que não havia um olheiro hollywoodiano por aquelas águas, senão ficariam sem o carisma do jangadeiro. Todos a salvo depois de muito lutar contra a baleia, graças a um dos pescadores que cortou a corda e o animal levou a âncora para seu passeio nas águas do oceano.

Contador de histórias, Seu Vasco cativa o turista e não precisa de esforço para ser simpático. O é por natureza. E desafia as leis da gramática, conseguindo se comunicar até com quem vem de longe para seu litoral:

- “Aparece muito turista estrangeiro por aqui e a gente dá um jeito de se comunicar. Inventa uma língua nossa. No final das contas, todo mundo se entende” – brinca.

Sujeito do mar, homem simples, profundo conhecedor das marés. Seu Vasco passou conosco pouco mais de duas horas – o período de jangada e enquanto nos esperava brincar nas águas baixas da piscina natural – mas deixou em nós a lembrança de quem vive a vida de forma muito simples, agradecendo diariamente à Deus o sustento que sai daquelas águas.

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