
Não precisei ir lá na Índia, tão longe, cruzando o oceano, para sentir um pouco da dor que carregam as viúvas. Vivi com uma boa parte da minha vida, que preservava aquela dor ali, intacta, como se ela nunca mais fosse capaz de sair de dentro de si. E talvez nem tenha saído mesmo.
Ela, Otília Ferreira do Carmo, linda, 28 anos, feliz, mãe de três filhos, dona-de-casa, como toda boa esposa do interior do Paraná, na década de 40. Ele, alto, magro, bonito, plácido, Jaime Araújo do Carmo, alguns anos apenas mais velho que ela. Pai, agricultor, marido de Otília há 10 anos.
Os filhos, três: Maria 10 anos, Lucas 8 e Leila 5. Crianças normais, felizes, da roça. Pés no chão.
Nesse fim de semana, olhos vivos e coração apertado, escutei a narrativa dessa história triste. A história de uma viúva e seus três filhos. Mais que isso, a história de uma viúva que nunca mais deixou o luto, mesmo que usasse o vestido mais alvo do guarda-roupa.
Logo após o almoço, ele se sentou na cadeira do terreiro em frente à casa, como de costume. Ela, lavando louça e as crianças brincando por ali. Ele, ninando a caçula, no merecido descanso antes de retornar para a lida pesada da lavoura. Ela, admirando o pai zeloso que ele sempre fora. O sol estava alto e ele se foi. Homem trabalhador não deixava de lado suas obrigações diárias. Ela ficou lavando louça e olhando pela janela, com a estranha sensação de que seria a última vez. Sexto sentido de mulher não falha.
Ele caiu, fulminante no chão, sob seu olhar.
No mesmo dia de sua morte, a comadre chegou com a fazenda preta para costurar o seu luto. Sem forças, coração costurado, apenas vestiu o vestido negro, golas altas, pregas soltas, tergal pesado para baixo do joelho e punhos apertando os pulsos. Ficaria assim para a vida toda. Coração em luto.
Sem renda, sem marido, sem condições de criar os três que lhe sobraram, partiu para a casa dos pais, para uma pequena cidade do Paraná, Cornélio Procópio. Enquanto as irmãs, ainda solteiras, costuravam seus próprios vestidos balonês, se pintavam de carmim e passavam a lavanda para a matinê dos bailes de domingo, ela vestia o seu luto e não sorria, pois já tinha nem mais dentes. Todos foram arrancados junto com o amor de seu lado. Não tinha maquiagem nem cor alguma que pudesse fazer com que seus dias pudessem ser mais alegres.
E foi assim por meses a fio. A filha mais velha, Maria, minha madrinha, quem me contou essa história na cozinha apertada do apartamento da minha mãe, nesse último feriado, me passou um pouquinho do que sua mãe vivia:
- “Era uma tristeza sem fim. Não podia mais continuar daquele jeito, tinha que dar um jeito de se alegrar de novo e ter algum ânimo para cuidar de nós, que não tínhamos mais ninguém além ela” – contou-me minha madrinha Maria.
Até que o luto foi encerrado e a camisolona preta foi deixada de lado, não sem antes uma conversa profunda, fechada a chaves, no quarto, com o tio que era padre. Ele foi chamado por sua mãe para que pudesse finalizar a parte do luto e que Otília pudesse se despir daquele peso negro que usou por tantos meses. A tentativa desesperada de arrancar do peito de sua filha mais velha a dor da viúvez precoce. Tentativa vã. Essa tristeza nunca a deixou.
Os meses se passaram, a vida continuou – como tinha de ser -, Otília e os filhos saíram da casa dos pais e ela começou a lavar e passar as roupas dos médicos cariocas que foram para Cornélio trabalhar na Santa Casa de Misericórdia. Alvejava as vestimentas, como se quisesse deixar sua própria vida branca novamente.
O sustento vinha. Se bem que Otília e as crianças nunca foram desamparados. Talvez fizessem por ela o que o marido sempre fizera em vida. Todos os domingos, com sol ou chuva, Jaime enchia os cestos da charrete com frutas que brotavam de seu pomar e rumava, areias finas, para a cidade. Tirava o domingo para adoçar o dia de suas viúvas. Deixava frutas para aquelas que já não tinham em quem confiar. Como se quisesse garantir o cuidado com sua própria viúva, antecipou o favor para que fosse pago anos mais tarde com sua Otília.
E a vida seguiu seu rumo, Otília foi nomeada funcionária pública da Santa Casa, trabalhou ali durante anos. Os filhos entraram na labuta logo cedo: Maria teve a primeira carteira assinada aos 14 anos. Limpava o SESC para que outras crianças de sua idade pudessem se divertir. Trabalho difícil, mas ela se lembra dele com um sorriso no rosto e brilho nos olhos:
- “O trabalho era até pesado, mas ali tinha uma radiola, onde colocávamos sete discos, um atrás do outro, e ela ia tocando todos. Eu escolhia os que mais gostava e limpava o chão feliz, escutando música e dançando” - lembra Maria dessa fase tão boa e tão difícil, ao mesmo tempo, de sua vida.
Otília se abriu para a vida novamente. Abriu seu coração para as pessoas que cruzavam o seu caminho: criou minha mãe e uma outra criança, tia Neide, como se fossem suas filhas. Ela, que já tinha três filhos e não tinha mais marido, viu na criação de mais duas meninas a vida brotar novamente.
O que não brotou nunca mais, em contrapartida, foi o amor por outro homem. Otília morreu, aos 63 anos sem nunca mais ter tocado outro homem. Não se permitiu amar novamente. Não se permitiu viver novamente. Foi mulher de um homem só, manteve os votos do casamento intactos, até quando o tempo quis.
Eu tive a sorte de passar 12 anos da minha vida ao lado dessa mulher forte, guerreira, aprendendo com ela a arte de viver e de ser mulher. Ela, que criou a minha mãe, também dedicou muitos anos de sua vida a mim, quando os filhos já não moravam mais com ela. Que pena que o tempo não me permitiu ouvir essa história pela sua boca. Mas, eu a sentia de alguma forma.
Talvez em seu modo pudico de ver o mundo. Talvez em suas roupas discretas e sem cor. Talvez na maneira recatada de se comportar. Talvez na dor que insistia em bater em seu coração nas noites frias de julho, quando ela juntava sua cama na minha para dormirmos juntas.
Otília foi a mulher mais nobre que eu já conheci em toda minha vida. Que sorte a minha poder ter aprendido com ela a arte de ser mulher e de ser, de alguma forma, feliz.
* Essa história também é, de certa forma, minha, pois eu compartilhei da vida de Otília durante muitos anos. Ela foi a mulher que me ensinou a comer, a andar, a enxergar o mundo. Eu, que mesmo não tenho o seu sangue, tenho o seu sobrenome, entretanto, todos os nomes foram alterados. Não por falta de amor ou respeito, mas por um cuidado necessário para evitar que esse texto tenha o seu objetivo – que é enaltecer a trajetória dessa mulher – distorcido.

1 Comentário
Novembro 4, 2009 às 4:20 pm
Filha, foi o texto mais lindo que já li, em toda minha vida…Eu cresci,escutando essas histórias de vida, e acredito,que aquela tristeza da solidão, impregnou meu ser… Essa mulher, que na sua ausência de querer, me teve em seus braços, e me ensinou o amor, mostrou valores, como a resignação, e nunca, me escondeu, que a tristeza, de forma ou outra, estaria sempre rondando nossas vidas… Há 16 anos, ela se foi, mas tem dias, que parece que foi ontem… Ainda sinto seu cheiro, seus olhos, negros, num luto profundo, me ensinando a ser gente… Tem momentos, que ainda escuto ela me chamar… doce ilusão… Ela se foi deixando o vazio de sua presença, e um pouco de seu luto, em minha vida… Mas seu legado de mulher,é permanente… Sua maior lição de vida que me passou,foi de amar incondicionalmente… Como ela me amou…